Fizemos o nosso melhor

Tudo indica que a família de refugiados Sírios que, desde o passado dia 23, habitava uma casa do “Lar de Sant’ana – Matosinhos” no centro da cidade, optou por fugir, abandonando, sem avisar, este espaço de refúgio que lhes foi oferecido.

Há mais de um ano que a casa começou a ser preparada, tendo sido totalmente remodelada. Foram instalados móveis e electrodomésticos totalmente novos. Com a ajuda de diversas pessoas, a casa foi decorada e equipada para receber bem, com dignidade. Foi abastecida de géneros alimentares e outros bens de conforto. Uma equipa fantástica foi buscar a família a Lisboa, entregou-lhe dinheiro para as primeiras despesas, desencadeou todos os mecanismos de integração social, nomeadamente ao nível que se afigurava mais importante: a saúde. A equipa integrava uma médica que, ainda por cima, conseguia falar algumas palavras em árabe. Melhor era impossível.

Quase desde o primeiro dia que começou a sentir-se algum desconforto: não era em Portugal que esta família queria estar. O objectivo era ir para a Alemanha, onde tudo era melhor. Falharam os compromissos de integração na Escola e foram adiados outros importantes. Foi procurada ajuda junto das entidades promotoras do programa, mas sem sucesso.

Uma casa como o “Lar de Sant’ana – Matosinhos” faz caridade norteada pela Misericórdia Cristã, caridade silenciosa, sincera, pura. Contudo, e sobretudo tendo em conta o número de solicitações existente, inquieta quando, numa casa com dificuldades, se mobilizam recursos materiais e humanos avultados para acudir a uma tragédia à escala Europeia, como é esta crise dos refugiados, e depois os beneficiários desprezam essa ajuda. Foi com o coração que o fizemos. Fizemos o nosso melhor.

É óbvio que as pessoas são livres, é óbvio que têm direito a procurar um futuro melhor para si e para os seus filhos. Contudo, depois de terem entrado em situação de emergência na Europa, estas pessoas têm o direito a ser tratadas com a máxima dignidade – como claramente lhes foi oferecido aqui em Matosinhos – mas têm também o dever de cumprir as regras do processo de integração que lhes foi oferecido. Neste caso, essas regras diziam claramente que estes dois próximos anos seriam passados na Rua Alfredo Cunha, no Coração da Cidade de Matosinhos.

Nesta Europa que todos queremos tolerante, sem muros, torna-se indispensável que todos assumam o seu papel: aos Europeus, compete por em prática os valores humanistas que sempre  distinguiram o “Velho Continente” no contexto mundial; a quem procura refúgio, o respeito pelas regras do acolhimento e um real esforço de integração.

Desejamos as melhores felicidades para esta família, em particular para as suas crianças.

Fizemos o nosso melhor.

António Pedro Correia