Lar de Sant'ana - Matosinhos, 83 anos. Um velho merece respeito.

O “Lar de Sant’ana – Matosinhos” celebra, neste mês de Novembro, mais um aniversário. São 83 anos de vida formal, embora quase cem desde que um senhor chamado Alfredo Cunha deixou em testamento este edifício, no lugar de Santana, para que fosse construído um espaço para pessoas pobres e desamparadas desta terra. 83 anos é simbolicamente a idade média dos idosos que vivem hoje nesta Casa. Tal como eles, o “Lar de Sant’ana – Matosinhos” é um velho. Um velho que merece respeito.

Na sua juventude e idade adulta, ainda o Estado não era Social, os “Albergues de Santana” assumiram o papel de último e único refúgio. Foram muitos os que aqui mataram a verdadeira fome, encontraram agasalho contra o verdadeiro frio. Foram muitos os que aqui tiveram albergue: cama, mesa e roupa lavada. Casa pobre, mas asseada, que o carinho materno das Irmãs da Consolação, desde o dia 21 de Novembro de 1942, passou a garantir.

Tal como acontece a muitos dos que cá estão, não bastou uma vida de sacrifício, de testemunho, de serviço, para que hoje, na velhice, este velho “Lar de Sant’ana” não seja desprezado, desrespeitado. Às vezes, é lembrado o seu passado, mas apenas porque fica bem. Às vezes, lá se perde tempo com o velho, mas pouco, que a vida continua e há coisas muito mais importantes. Às vezes, até os mais próximos o esquecem, o ignoram. Este velho é um velho.

Nos últimos dez anos, o velho quis ser melhor. Quis reformar-se, renovar-se. Oferecer uma vida melhor aos seus velhos. Chamou-se “Projecto da 3ª fase do Lar de Sant’ana – Matosinhos”, o nome era fraco, não ficou. Foi um caminho difícil, no qual o velho cumpriu escrupulosamente as suas obrigações, junto de fornecedores e financiadores. Com a máxima transparência, publicou uma lista exaustiva dos investimentos feitos, dos preços pagos e respectivos fornecedores. O velho não recebe lições de rigor, legalidade, nem transparência. Infelizmente, nem sempre mereceu o mesmo tratamento de correção e rigor. O que se ganha com a velhice é poder de encaixe, mas não se pode pôr o orgulho numa caixa. Há histórias deste projecto que ficarão para as memórias da Casa com provas claras de que este velho foi desrespeitado. Um velho pobre não o merece.

De permeio, veio a crise, o refeitório social cheio. No silêncio, trocaram-se as panelas por outras maiores – o importante era dar resposta. E quando o Estado Social acordou e os poderes públicos encontraram os recursos para a “emergência social”, talvez na ilusão de que um ser humano pode passar meses sem comer, o “Lar de Sant’ana – Matosinhos” foi… esquecido. O velho não importa. Há sempre uma razão legal ou de circunstância que justifica a exclusão. Continuemos.

O velho procura ser justo com os seus colaboradores, com os seus fornecedores, com os seus utentes e respectivas famílias. E é para estes, para os seus velhos, que, todos os dias, esta Casa generosa abre as suas portas. Entristece por isso que, nunca como agora, a Instituição perca tempo e recursos com quezílias diversas, a defender-se de situações tristes e revoltantes. Trata-se de um velho. Um velho não merece ser enganado. Um velho não merece ser tratado de forma injusta.

O velho está com boa saúde. No limite dos seus recursos, mas com força para continuar a desenvolver um trabalho silencioso, diário, de apoio a todos aqueles que acolhe. O velho ainda sonha que, mesmo com 83 anos, seja possível lançar novos projectos que façam com que mais pessoas sejam amparadas por esta Casa, a qual, pelo seu passado, pelo seu presente e pelo seu futuro, pode não merecer admiração, mas merece com certeza respeito.

Um velho merece respeito.

 

António Pedro Correia, Voluntário