O dever de ajudar quem foge da guerra

Portugal acaba de ultrapassar a barreira dos mil refugiados acolhidos. Trata-se de um momento simbólico, que lembra que ainda faltam 3.500 para que o país cumpra as suas obrigações internacionais. Por outro lado, obriga à tomada de consciência de um problema novo, comum a outros países e que urge ser resolvido: segundo dados oficiais, 200 desses refugiados partiram para países diferentes dos indicados pelo mecanismo europeu de acolhimento.

No “Lar de Sant’ana – Matosinhos” testemunhámos e continuamos a viver o drama de doze destas pessoas, no caso provenientes da Síria (Alepo e Daraa), ao abrigo do Programa de acolhimento de famílias da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR). Pessoas deslocadas, num país com enormes diferenças culturais, com receios e ambições próprios de quem fugiu de um ambiente de guerra e ódio – e que, como é legítimo, procuram o melhor para si e para os seus filhos.

Se é verdade que no caso da família acolhida no ano passado não foi possível demovê-la de uma ideia pré-concebida de partir para outro país (hoje, segundo informações que circulam, deverá estar num campo de refugiados Alemão, seguramente bem menos acolhedor do que a casa da Rua Alfredo Cunha), vive agora no Coração de Matosinhos uma família jovem, agradecida pela forma como tem sido acolhida, reconhecida pelo trabalho de todos os que estão envolvidos neste projecto e da notável disponibilidade do Sistema de Ensino Público e Social (como o Jardim de Infância Santa Cecília) e dos Serviços de Saúde.

Trata-se de uma família inquieta, que quer construir o seu futuro, longe de uma perspectiva assistencialista de receptores de apoios “solidários”, de que necessitam no curto prazo. Em particular os pais desta família – que sentiu na pele de um dos seus membros os danos efectivos da guerra -, pretendem tornar-se úteis, contribuir de forma activa para o seu sustento, trabalhar.

 É esse o desafio maior que temos agora pela frente: encontrar uma colocação para um homem de 36 anos, com experiência de carpintaria, que lhe permita contribuir para a construção da sua “casa de família”, um dos seus firmes propósitos, onde os seus 4 filhos menores – de um, seis, sete e oito anos – cresçam de forma saudável e esqueçam os traumas da fuga de um país em guerra, a travessia do Mediterrâneo e o acolhimento primeiro na Grécia e depois, cá longe, no Coração de Matosinhos.

Esta família e, em particular, estas crianças merecem um futuro melhor e merecem a ajuda de todos aqueles que, em nome de um princípio básico de civilização (acolher aqueles que fogem da morte), estejam disponíveis para, de forma prática, ajudar: comida, roupa para crianças e uma colocação profissional são as necessidades de curto prazo para esta família que estará em Matosinhos nos próximos dois anos.

No meio de todos estes desafios e da riqueza desta experiência para o “Lar de Sant’ana – Matosinhos” e para as suas equipas, uma certeza: como deve estar feliz o Sr. Padre Alberto Moreira, lá no seu descanso eterno, por saber que na sua sala brincam agora crianças irrequietas e que, na sua cozinha, são preparadas deliciosas receitas árabes…

Mais do que ninguém, ele deixou-nos esse testemunho de amor silencioso e desinteressado ao próximo, próprio de um Franciscano, independente da sua raça ou religião. Ajudar quem foge da guerra constitui um dever de todos os que se reveem nos valores básicos da vida em comum neste confuso mundo do século XXI.  É um dever ajudar esta família de refugiados Sírios, que vive agora na nossa cidade, e que merece reconstruir a sua vida com dignidade e em paz!

O contributo de todos é bem-vindo.