Irmãs da Consolação no Lar de Sant'Ana

Era o declinar de 1942, em plena guerra mundial, quando as Irmãs da Consolação pisaram solo português. Chamadas pela direção da Casa dos Pobres, mediante a solicitude do bondoso e recordado Rev. Padre Alfredo Ferreira Sanches, Presidente da mesma e Digmº Pároco de Matosinhos, para se encarregarem do Governo da mesma, chegam a esta no dia 21 de Novembro.

Naquele tempo, esta casa, então nomeada como “asilo”, não passava pelas suas melhores fases.

Depois de muitas vicissitudes, resolveu a Direção procurar uma congregação que tivesse como Carisma o cuidado dos pobres. Pediram a Consolação.

As Irmãs encontraram as instalações desordenadas e sujas. Imediatamente põem as mãos à obra, solicitando a ajuda dos Internados e, pouco a pouco, tudo ficou transformado.

Sem querer, as Irmãs estavam repetindo a História da chegada da Santa Madre ao Asilo de Tortosa e isso dava-lhes alento para seguirem as suas pisadas.

A alimentação era modesta, à base de peixe, visto que, em tempo de guerra, a carne era racionada e nunca chegava para todos. Quando as Irmãs chegaram, havia 25 Internados e repartiam a sopa e pão a mais de 100 pobres.

Como não havia uma parte reservada para a Comunidade, a Direção resolveu fazer obras para criar uma certa independência às Irmãs. Começaram as obras em Janeiro de 1944 e em Junho fazem a inauguração da casa. Toda a gente que a visitou ficou encantada com o arranjo, a limpeza e o toque feminino das Religiosas em todas as dependências. O que mais chamou à atenção foi a parte que passaria a ser a “clausura”. Nesta altura já eram quarenta os internados e muitos estavam à espera de uma oportunidade para entrar. Onde estava o segredo? É que os velhinhos passaram a viver mais alegres por estarem rodeados de carinho, de atenção, por terem alguém que os escutasse. Sentiam-se em casa…

Decorreram cinquenta e cinco anos. Todas as Irmãs que por aqui passaram deixaram exemplos de paciência, de espírito de sacrifício, de humildade, na sua missão de entrega aos mais pobres, procurando rodeá-los de carinho para suavizar as asperezas da vida que lhes foi madrasta ou não souberam vivê-la. Exemplo de abnegação foi a Madre Angélica Roig que, ainda nova, confrontada com a proximidade da morte, foi convidada a ir para a sua terra. Respondeu perentoriamente: “Deixem-me ficar, quero morrer perto dos “meus velhinhos”.

Hoje a Casa dos Pobres não é a mesma. É o Lar de Sant’Ana…

Também nestes últimos 72, as Irmãs da Consolação têm colaborado na Catequese da Paróquia, na visita aos doentes, levando-lhes a Sagrada Comunhão. Além disso já passaram muitas dezenas de jovens nos seus Grupos “Consolação para o Mundo”, bem como nos Grupos de Oração.

Aqui continuam as Irmãs da Consolação, procurando espalhar, à sua volta, sementes de alegria, de esperança e de amor.

Os seus nomes não são notícias nos jornais, não são badalados na rádio ou T.V., mas prosseguem abnegada, silenciosa e humildemente a entregarem as suas vidas no “Serviço dos mais pobres”. Como a Santa Madre Mª Rosa Molas, as suas filhas vão repetindo: “Nada mais desejo que o pobre seja assistido e Deus louvado”.

 

Colégio da Boa – Nova

Depois da fundação da Comunidade da “Casa dos Pobres”, nasceu no coração das Madres do Governo-geral o desejo de abrir um Colégio.

Com esse fim chegam a Matosinhos, a 30 de Setembro de 1943, cinco Irmãs, acompanhadas de uma Madre do Conselho Geral que há-de ser a Superiora da Casa. Durante os trâmites para a aquisição do Colégio da Boa-Nova, as Irmãs instalaram-se na Rua Conde Alto Mearim, 188, onde se dedicaram ao estudo do Português. Para se manterem, começaram a dar classe de francês, espanhol, desenho, pintura e outros lavores. Trabalhavam também para fora: bordados, malhas e rendas.

A 17 de Outubro de 1945, recomeçaram as aulas no Colégio da Boa – Nova, agora sob a orientação das Irmãs da Consolação, embora continuasse como Diretora e Professora a nossa muito querida D. Margarida Barbosa da Cunha que permaneceu em funções quase até à sua morte.

Durante 28 anos, as Irmãs, numa doação total de si mesmas, dedicaram-se de alma, vida e coração à tarefa árdua e aliciante do despertar para a vida, em plenitude, de centenas de crianças que saíam dali, os rapazes para as Escolas Primárias e as meninas, já umas jovenzinhas, para seguir estudos que não eram ministrados no Colégio. Mas, ao deixaram-no, levavam uma boa educação e uma sólida formação moral, bem como a recordação e o carinho daquelas Irmãs que tanto as ajudaram a ultrapassar as fases da sua infância e adolescência. Lembrarão toda a vida as festas lindas e inesquecíveis em que eles e elas foram os protagonistas. Lembrarão também o zelo com que as Irmãs os prepararam para o seu primeiro encontro com Jesus na Primeira Comunhão.

Dentro do Colégio estabeleceu-se uma verdadeira comunidade educativa, uma corrente de amizade! Professores, Irmãs, alunos e respetivas famílias. Não havia uma atividade em que não dessem o seu contributo.

Além das atividades próprias do Colégio, funcionava ali uma Conferência de S. Vicente de Paulo fundada por um grupo de alunas.

A Obra de Santa Zita tinha ali as suas reuniões, presididas por uma Irmã. Algumas das filiadas naquela Obra, ali prenderam a ler e a escrever.

Algumas Irmãs trabalharam ativamente na Paróquia como Catequistas, dando o seu melhor na organização e ensaios da Profissão de Fé – Comunhão Solene.

Mas… o tempo passa e a “casa – colégio” deixou de responder às exigências educativas da época. Na impossibilidade de adquirir o prédio (por parte do proprietário) para poderem fazer as obras convenientes de ampliação e não havendo outra casa em Matosinhos que se coadunasse com o exigido pelo Ministério, o Conselho Geral resolveu fechar o Colégio a 17 de Julho de 1972.

Saudade imensa deixaram as Irmãs do Colégio da Boa – Nova, assim como foi imensa a falta que ele fez para a sólida formação dos jovens nos tempos da transição para a democracia. Algumas ex-alunas confidenciaram-me várias vezes: “Que falta faz o Colégio para a educação dos nossos filhos!” As Irmãs partiram com o coração apertado de emoção. Ficavam aqui os melhores anos da sua vida. Levavam consigo uma grande satisfação de missão cumprida, pois tinham semeado em muitos corações a fé, o amor, a consolação de Deus.

Casa dos Pescadores

No dia 1 de Novembro de 1944, três Irmãs da Consolação tomaram conta do Internato desta Casa.

Viviam aqui vinte idosos que tinham sido pescadores. Ajudavam as Irmãs, duas empregadas e uma lavadeira.

Com a entrada das Irmãs, a Casa tomou outro rumo, alegrando-se com isso não só os Internados, mas também a Direção.

Em 1954 chega mais uma irmã porque a Direção decidiu abrir uma classe de Lavadores. Era gratuita e para meninas ou jovens de Famílias de pescadores. Manteve-se aberta até 1970. Fechou porque tinha ficado quase sem alunas, já que as jovens preferiam ir para as fábricas onde ganhariam dinheiro.

Os velhinhos foram diminuindo pelo que a Madre Geral resolveu retirar as Irmãs. Foi com grande tristeza que no dia 15 de Agosto de 1975 as viram partir. Durante 31 anos as Irmãs derramaram à sua volta muito amor, muita Consolação.