Sta. Mª Rosa Molas

1815

Nasce em Reus, cidade industrial e centro de grande movimento comercial, nos difíceis anos da Espanha dos princípios de 1800. Chamaram-lhe Rosa Francisca Maria de los Dolores.

A sua infância e juventude decorreram tranquilas, no seio de uma família da classe média, num lar normal, cheio de equilíbrio e de paz cristã.

O pai, José Molas, homem de fé prática, soube transmitir aos seus filhos o ardor da devoção a Maria e a veneração pelo “Pobrezinho de Assis”, bem como o exemplo de uma vida digna.

A mãe, Maria Vallvé, mulher trabalhadora, de poucas palavras, mas de uma vida e fé profundas, influenciou, fortemente a sua filha. A sua ternura e abnegação abrem e dilatam a capacidade do coração de Dolores. Uma grande confiança e amizade une-as fortemente, até que a mãe morre, contagiada pela cólera, pelo seu afã de servir e ajudar o necessitado.

Aos dezanove anos, Dolores tem de tomar o lugar da sua mãe na direção da casa. Consciente do seu papel, procura preencher o vazio que a mãe deixou nos outros.

Entretanto, o seu coração vai-se alargando. Na sua vida, a amizade de Cristo lança raízes profundas. Dele recebe força e companhia na solidão. Nos momentos que o governo da casa lhe deixa livres, dedica-se a tratar dos doentes no hospital vizinho.

 

1841

Dolores entra numa Associação de piedosas mulheres que cuidam do Hospital de Reus.

Viu-as animadas de sentimentos de caridade, numa grande entrega e desinteresse. Ignora, porém, que elas não formam uma verdadeira Congregação religiosa.

Esta anómala situação não impede que Maria Rosa leve uma vida comprometida: fiel a Deus, dedicada aos pobres, sincera para com os seus superiores.

 

1849

É enviada a Tortosa. Á frente de um grupo de Irmãs toma conta da Casa da Misericórdia, situada num dos bairros pobres da cidade. Em pouco tempo transformou a casa. Logo toma conta de outras obras: uma escola oficial, um hospital, … Consegue o título de professora oficial.

Em Tortosa contacta com o ambiente eclesiástico. Surgem muitas dúvidas no seu espírito. Pouco a pouco toma consciência da realidade que vive: a Corporação a que pertence carece de fundamento sólido. A vontade de Deus manifesta-se. Tem de pôr-se sob a autoridade da Igreja. Exige-o a missão de caridade que exerce, a continuidade no tempo e o maior proveito espiritual das Irmãs.

 

1857

A incompreensão das Irmãs de Reus e as circunstâncias em que vive em Tortosa obrigam-na a dar o passo decisivo.

Com grande dor, separa-se da Corporação de Reus e pede proteção, assistência e direção à Igreja de Tortosa, colocando-se sob a obediência do Bispo.

São um grupo de doze mulheres. Nasce uma nova Congregação na Igreja.

 

1858

O Instituto enraíza-se. Toma um nome: Irmãs de Nossa Senhora da Consolação; síntese de um carisma de caridade misericordiosa; expressão de um serviço: consolar.

 

Maria Rosa Molas sabe que o homem só pode aproximar-se de Deus quando se sente realmente pobre. Não há momento mais favorável para falar d’Ele ao Homem, para fazê-lo experimentar a Sua misericórdia, do que quando sente a própria pobreza e debilidade. Por isso, quer estar junto dos pobres e dos fracos: da criança, do doente, do idoso. Há que levar-lhes a consolação de Deus, a sua verdade, a sua bondade, a sua presença.

Mulher de grande espírito e coração afetuoso sabe infundir calor, a consolação, nos outros. A sua vida e as suas obras são marcadas pela firmeza do seu carácter e pela ternura dos seus sentimentos.

O seu exemplo abre caminho às suas filhas: caminho de misericórdia e bondade. Caminho que nasce de uma radical abertura para com Deus e de um encontro que se faz mais íntimo na contemplação dos seus atributos e na constante fidelidade ao Evangelho das Bem-aventuranças.

Não morreu!

Maria Rosa Molas não morreu no dia 11 de Junho de 1876. Nesse dia apenas desapareceu o mais superficial da sua pessoa, a sua presença física.

O eu profundo, o que sofreu com elegância, o que lutou com energia, o que trabalhou até ao esgotamento, o que amou misericordiosamente, não morreu naquele Domingo da Santíssima Trindade. Esse eu tinha sido tão forte, tão profundo, tinha as suas raízes tão arraigadas em Deus, que não podia morrer.

Continuou a viver, porque a sua força tinha-se comunicado a outros “eu”, que tinham aprendido a lutar, a trabalhar, a amar, ao estilo de Maria Rosa Molas.

 

É assim tão simples a história do seu instituto: força de Deus, centrada e atuante num coração de mulher, para arrastar, através dos anos, outras milhares de mulheres, e nelas continuar a atuar.

 

A Madre quis que se chamasse consolação.

Foi como uma resposta à voz do profeta:

“Consolai, consolai o Meu Povo” (Is 40, 1)

Isto pretendem, hoje, as filhas da Madre Molas, um século após a sua morte. Consolar o Povo de Deus, onde for mais necessário esse consolo.

 Esta consolação desenvolve-se em dois campos: assistência aos doentes, idosos e pessoas portadoras de deficiência e educação da juventude.

 Mas a Madre Molas, mulher profética, que se movia na liberdade de espírito, não limitou o âmbito da sua ação. Deixou o campo aberto para “qualquer género de necessitados”.

 Nasceu a Consolação em Tortosa, no recanto espanhol onde morre o rio Ebro.

Em poucos anos, de Tortosa em direção ao sul, pela alegre comarca da Plana, doentes, idosos e crianças sentiram o afago consolador das Filhas da Madre Molas.

A pequena semente foi crescendo.

 A Madre Molas não morreu!

Vemo-la hoje a amar com misericórdia em quase toda a geografia de Espanha.

Podemos encontrá-la a cuidar de idosos num recanto de Portugal.

Deparamo-nos com ela a ensinar crianças e jovens nas terras ardentes do Brasil.

Na Argentina e na Venezuela, alivia dores, desperta inteligências e assiste, também, a uma Paróquia, substituindo o sacerdote em tudo, exceto nas funções estritamente sacerdotais.

Promove o Homem, ensinando-lhe o conhecimento de Deus nas Missões em Burkina Faso, antigo Alto Volta, na África Central.

Encontramo-la, ainda, em Itália, na Eslováquia, no Chile, no México, na Coreia do Sul, no Equador, na Bolívia, no Togo e em Moçambique.

Madre Molas, filha fiel da Igreja, vive hoje, também, junto da Sé de Pedro, para poder assim captar melhor o pulsar do seu coração e continuar a ser uma filha disponível na Família do Pai, pedra viva no grande edifício.

A 3 de Maio de 1934 começa, em Tortosa, o Processo Ordinário, o qual é apresentado à Sagrada Congregação dos Ritos, em Fevereiro de 1936.

A 27 de Julho de 1951, S. S. Pio XII, com um simples “Placet Eugénio”, decreta a Introdução da Causa.

A 1 de Novembro de 1952 começa, em Tortosa, o Processo Apostólico sobre as virtudes da Serva de Deus. Ao mesmo tempo, faz-se o processo sobre os milagres atribuídos à sua intercessão.

A 23 de Novembro de 1956, a Sagrada Congregação declara a validade dos Processos.

No dia 21 de Maio de 1968 autorizava a continuação da Causa, depois dos teólogos terem emitido o seu juízo sobre a heroicidade das virtudes da Madre Maria Rosa Molas.

Concluído o exame das virtudes com o juízo dos Cardeais, S. S. Paulo VI declara que a Serva de Deus praticou as virtudes teologais, cardeais e anexas, em grau heroico.

Por fim, concluído o processo dos milagres, S. S. o Papa Paulo VI proclama-a BEATA.

É o dia… 8 de Maio de 1977.

Madre Maria Rosa Molas continua, no seio de Deus, a derramar a sua caridade misericordiosa.

Não são lendas seculares…

São factos que se vão repetindo e que nos gritam com força que, aquele caudal de caridade, não se esgotou no dia 11 de Junho de 1876, em Tortosa.

Desde a ajuda íntima e eficaz, atuando no mais profundo do espírito humano, onde faz germinar ou reviver a fé, até a um grande número de intervenções extraordinárias…

São os rastos que assinalam a sua presença entre nós.

Dois milagres, reconhecidos como tais pela ciência e pela Igreja, encheram de consolação dois corações de mulher.

Elas, presentes no meio de nós, são testemunhas de uma caridade misericordiosa que continua a atuar.

 

12 de Julho de 1951

Uma queimadura, que ao longo de um ano de intensas dores, destrói um braço com gangrena e leva uma noviça às portas da morte. A ciência declarou-se impotente para atalhar o mal.

Para que os seus pais tenham o conforto de acompanhá-la nos últimos momentos, decidiram levá-la para casa na manhã seguinte…

Isto supõe deixar a Congregação.

Sor Sagrario não quer ir. É então que a fé e a esperança estão preparadas para o milagre.

A irmã pede para ser acompanhada à Igreja e, ali, sobre a tumba da Madre, reza fervorosamente:

- Madre fundadora, antes de sair amanhã do noviciado, peço: esta noite, ou a cura ou a morte.

E Sor Sagrario continua o seu relato:

 - Foi mais tarde, às duas e meia, que me apareceu a Virgem dizendo:

- Filha, tem confiança na Madre Fundadora, ela te curará.

E depois vi a Madre…

Tirou-me as ligaduras, tocou-me no braço e disse-me:

- Filha, não sofras, estás curada.

E desapareceu…

De uma extrema gravidade passei á cura instantânea e completa. Senti cessar, de repente, as terríveis dores. Reparei que o braço desinchava rapidamente. As feridas profundas fecharam e fiquei com uma grande consolação e com a certeza de estar curada.

E foi assim que, as chagas gangrenadas de uma ano de enorme sofrimento, se fecharam num instante, porque o amor de uma mulher misericordiosa é canal do Poder de Deus.

 

Elvira Ruiz tem doze anos e peritonite tuberculosa com inchaço abdominal, febre alta e existência de um derramamento ascítico livre. Estado grave.

- Deram-me a notícia de que tinha de ser operada e eu não queria. Na manhã do dia seguinte comecei a novena. Passei o dia e a noite a pedir à Madre a minha cura sem ter de ser operada. Adormeci, não sei bem a que horas.

No dia seguinte, ao acordar de manhã cedo, senti-me curada.

O ventre inchado tinha voltado milagrosamente à normalidade. Recobrei as forças, o apetite… tudo! Não tornei a sentir mais nada.

A Madre tinha-me curado!

Os médicos tiveram de aceitar a intervenção sobrenatural: cura instantânea e completa, não explicável cientificamente.

 Um pobre, entre os mais pobres de Caicara de Orinoco, saiu para pescar, tendo levado consigo o seu filho de cinco anos, William. Passaram a manhã à pesca, numa lagoa que se forma em Orinoco, junto do Centro Assistencial Indígena Maria Rosa Molas, onde as Irmãs da Consolação acolhem os Índios Panares.

À tarde, o pobre homem foi novamente pescar com o seu filho. A pesca foi rápida e abundante. Juntamente com os peixes pescados, encontravam-se piranhas, animais carnívoros e vorazes. O pai advertiu William para não lhes tocar. Mas o menino resolveu fazer o que tantas vezes viu fazer o seu pai: pegou na navalha e deu um golpe na cabeça de uma das piranhas para as matar. Todavia, o golpe de uma criança pequena não matou o peixe. Este virou-se contra a criança e mordeu-lhe um dedo da mão esquerda, cortando-o.

Acorrendo ao filho, o pai ligou o dedo do menino com um pedaço de pano rasgado da sua camisa e remou apressadamente para terra. Juntamente com a mãe em lamentos, dirigiram-se ao Hospital.

Ao pai ocorreu algo de inesperado. Resolveu abrir todos os peixes em busca do pedaço do dedo cortado pelo peixe. A mãe achou tal desnecessário, acorrendo em busca de um médico.

Dr. Gómez, que os deveria atender, encontrava-se a realizar uma lavagem gástrica a uma menina que ingerira um líquido tóxico. Demorou até o William ser atendido. Quando chegou a sua vez, o médico perguntou pelo restante dedo cortado, pois pretendia enxertá-lo. De imediato lembrou-se de Maria Rosa Molas, de quem era muito devoto.

Uma vizinha, que acompanhara a mãe ao Centro de Saúde, ofereceu-se para ir a casa desta. Juntamente com o pai do menino, procuram o dedo dentro dos peixes, tendo-o encontrado coberto de formigas. Embora apreensivos, sacudiram as formigas e enrolaram o dedo num pedaço de papel, dirigindo-se de imediato para o Hospital.

 Quando o Dr. Gómez pôde realizar a operação havia decorrido uma hora após o incidente.

Esta é uma microcirurgia muito delicada, que requer aparelhos sofisticados de que o Centro de Saúde de Caicara carecia. O médico não confiou na ciência. Confiou, sim, na intercessão de Maria Rosa Molas, tendo dito á mãe do menino que rogasse por ele junto da Beata. Esta assim o fez.

Madre Maria Rosa Molas fez a cirurgia que o Dr. Gómez não pôde fazer. Contra todas as previsões humanas, o dedo do menino sarou e hoje tem movimento, sensibilidade, vida.

 Parecia inacreditável. Quase uma lenda,

Mas o Senhor esperava o momento para nos fazer ver que “tudo é possível quando se crê”.

 Vários médicos analisaram o William mas não conseguiram explicar o sucedido.

 Institui-se, então, um Processo na Diocese de cidade de Bolívar, Remeteu-se a Roma, á Sagrada Congregação das Causas dos Santos.

Concluído o estudo, médicos e teólogos afirmaram que o sucedido teve “ a mão de Deus” por intercessão de Maria Rosa Molas.

O Senhor confirmou o empenho da Madre em cumprir a sua missão de Consolar. Como sempre, a Madre ajudara os mais necessitados, os mais pobres de entre os pobres, os mais pequenos do Reino, as crianças, que eram “os meninos dos seus olhos”.